Santa

São significativas as demonstrações de veneração, admiração e gratidão à Madre Teresa de Saldanha pelo seu testemunho evangélico, que emerge, com clareza, da sua vida, designando-a, explicitamente, de Mulher Forte do Evangelho, comprovando, assim, a sua fama de santidade.

D. João Evangelista de Lima Vidal ao escrever a sua biografia afirma estar a "esboçar o perfil de uma santa" e que ela "apesar de feita do nosso barro, elevou-se por uma fidelíssima correspondência à graça de Deus" e "parecia já uma santa."

Ao longo de toda a obra, o autor refere-se a Teresa de Saldanha como santa, salientando o modo calmo e sereno com que ela, a mulher forte do Evangelho, já gasta de trabalhos e anos, reagiu na revolução republicana, acrescentando: "É sublime. Só os santos é que dizem assim."

Lembro-me de a ter visto, muito bem duas vezes, a Madre Fundadora das Dominicanas, essa tão nobre e tão suave figura de santa, que dominava, mesmo sem querer e sem dar por isso, toda a pequenina luminosa cena.
A primeira foi em Benfica. Teresa de Saldanha estava então na plenitude da sua maravilhosa energia. Só se lhe começava a notar, ainda brandamente, aquela curva do pescoço que mais tarde, para os fins da vida, quase lhe colava o queixo ao peito. Não era muito alta. Uma doçura inefável apagava nela os traços mais acentuados ou duros da altivez do seu sangue.
Dava ideia de Santa Isabel da Hungria, inclinada para os seus pobrezinhos, a dizer-lhes palavras muito ternas e a lavar-lhes os pés feridos.
Os olhos eram pequenos e míopes, mas cheios de brilho, de uma vida acesa; desses olhos que, embora pequenos e míopes, se enterram por assim dizer, com prodigiosa penetração, pelas almas dentro, até ao fundo. Um largo sorriso lhe rasgava a boca. Não se poderia dizer, certamente, uma beleza correcta em todas as suas linhas; mas o conjunto das feições era sumamente atraente, e dela transpirava não sei que ar senhoril de bondade, que ao mesmo tempo impunha respeito e movia à confiança e, ainda mais, ao amor.
Da outra vez que a vi, foi na sua cadeirinha de inválida, na casa de Gomes Freire, em Lisboa. Tinham passado por cima daquela veneranda figura a revolução e os anos. Mas nem a revolução nem os anos conseguiram abater ou mesmo alterar a esplêndida serenidade da sua alma, a calma do seu sorriso, a doçura fidalga, ou, para melhor dizer, a unção cristã das suas maneiras. Se a encontrei de traços envelhecidos, quase presa ao seu encosto de palha, não foi preciso muito tempo para me aperceber com assombro do pleno meio-dia daquele espírito, da frescura cristalina do seu coração, e, sobretudo, já não digo só da magnanimidade da sua alma no meio de adversidades e injustiças atrozes, mas da verdadeira auréola de santidade que irradiava da augusta fronte. Se os santos não são assim, como serão eles então?
D. João de Lima Vidal