Decorreu em Fátima, na Casa das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, o I Encontro presencial do Conselho Geral com as Superioras Provinciais. Marcaram presença física todas as Irmãs do Conselho Geral, a Superiora Provincial da Província Portuguesa, uma Conselheira da Província Brasileira, em representação da sua Superiora Provincial que por vários motivos não pode viajar, entretanto marcou presença virtual quase em todas as atividades. A Superiora Provincial da Província africana (Angola e Moçambique), não conseguiu o visto para estar em Portugal mas, graças a Deus, com as novas tecnologias, foi possível participar via online.
O encontro foi projetado e convocado pela Superiora Geral, Irmã Rosilene Linares, para: “reforçar os laços fraternos que nos unem como corpo congregacional; discernir, à luz do Evangelho e em espírito de sinodalidade, os caminhos que o Senhor hoje nos apresenta; partilhar experiências de missão que alimentem a nossa esperança e renovem as nossas forças; renovar o nosso compromisso de liderar com simplicidade, coragem e confiança” (Carta convocatória, 17 setembro 2025).
O Tema “Semeadoras de Esperança que transforma” é um convite a cultivar a vida, a comunhão e a profecia ao serviço do Reino. Temos o grande desafio de lançar sementes de esperança nos corações feridos, nos espaços de fragilidade e nas realidades que clamam por justiça e paz, contando com a força transformadora inerente à esperança cristã, a qual nasce da fé e se concretiza em gestos de solidariedade, cuidado, escuta e presença.
Como gesto simbólico do tema, na abertura do encontro cada participante lançou à terra um pouco de semente de trigo que germinou, brotou e cresceu tal como acontece com a palavra de Deus nos nossos corações, o próprio Deus a faz germinar e amadurecer através de caminhos que nem sempre podemos verificar e de uma maneira que não conhecemos (cf. Marcos 4, 26-29). A esperança é uma força transformadora na missão e na liderança. Num tempo marcado por desafios sociais, espirituais e institucionais, este encontro tornou-se um espaço de escuta, discernimento e renovação.
O tema “Semeadoras de Esperança que transforma” teve as seguintes intervenientes:
Irmã Ízide Santina Vecchi da nossa Província Brasileira (18 e 19 de novembro de 2025). Começou por falar sobre a importância do autocuidado e frisou que“Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação. Onde há cuidado e interdependência há esperança! É preciso cuidar-se para cuidar. Enfatizou o conceito de autocuidado na filosofia, na Bíblia, autocuidado integral nas dimensões espiritual, físico, emocional e social. E orientou muitos exercícios e dinamicas próprias do cuidar-se.
Ao falar sobre a Verdade e o bom governo, salientou que na tarefa de governar, não pode haver interesses, mas amor à verdade. É preciso integrar o carisma, a missão e a comunhão fraterna, assegurando que a gestão dos recursos e as decisões estratégicas estejam alinhadas com a identidade e os valores da congregação; garantir a fidelidade ao carisma, transparência e corresponsabilidade; o exercício do governo é partilhado.
Apontou alguns obstáculos ao bom governo: a cultura de centralização de poder, resistência a mudanças, falta de formação em gestão e liderança, escassez de vocações e envelhecimento, falta de integração dos leigos, desafios económicos e administrativos, falta de claridade nos papeis e responsabilidade e o medo de perder a identidade carismática.
Aprofundou o conceito de verdade na perspetiva de Tomás de Aquino, Gustavo Gutierrez e Teresa de Saldanha. A verdade em Teresa de Saldanha se expressa na honestidade e transparência interior, no projeto de vida religiosa, no agir social e educativo; requer constância e fidelidade, sinceridade espiritual; verdade encarnada e social.
Apresentou o estilo de liderança de Domingos de Gusmão: participativo, dialogante, centrado na missão, não era centrado na pessoa do lider, obediência desde a escuta e corresponsabilidade na busca do bem comum.
Quem governa não detém sozinho a verdade, deve buscá-la na tradição, na razão, nos especialistas, na moral, na lei natural e na experiência social.
Falou também sobre as tipos de abusos, para os quais a prevenção não se faz apenas com leis, mas com educação, diálogo, escuta e construção de vínculos saudáveis.
Irmã Geraldina Céspedes Ulloa – vinda de Espanha – Missionária Dominicana do Rosário. De 21 a 23 novembro de 2025, falou sobre o subtema “Mulheres religiosas, esperança numa Igreja Sinodal”. Podemos afirmar, referiu ela, que a questão da mulher na Igreja se está a tornar cada vez mais a pedra de toque do processo sinodal. Considerando que a vida religiosa feminina é um sector qualitativo e quantitativamente significativo na Igreja, devemos perguntar-nos qual o seu papel e o seu contributo específico para avançarmos para uma Igreja verdadeiramente sinodal. As religiosas são chamadas a desempenhar um papel de liderança na construção da sinodalidade. A vida religiosa das mulheres é uma das áreas que mais pavimentou o caminho para a sinodalidade. Isso nos deve impulsionar a procurar formas criativas de sermos mulheres sinodais nos diversos contextos em que a nossa vida e missão se desenrolam. Como é que eu, a minha comunidade e a minha congregação vivemos a espiritualidade sinodal que nos leva a entrelaçar a comunhão, a participação, a inclusão e a circularidade?
De Consumidoras precisamos passar para Produtoras da Sinodalidade; Encarnar uma Espiritualidade de Inclusão; Almejar uma Democracia Radical; Recriar o Sonho de Comunidade; Viver uma Sinodalidade Cósmica; Rumo a uma Economia Sinodal; Uma Imagem de Deus para uma Era Sinodal – mergulhar nas profundezas da nossa experiência de fé para desvendar o papel que as nossas imagens de Deus desempenham na nossa libertação, cura, integração e profundo sinodalismo.
Apelou para uma Liderança “Ponte”, na qual enfatizou a “Liderança Dominicana para a Vida Comunitária e a Missão”. Procurou situar-nos a partir de quem somos (mulheres dominicanas) e do propósito da nossa liderança (criar comunidades com vitalidade evangélica e uma missão significativa nestes tempos em que vivemos). O ponto de partida para uma liderança eficaz é a compreensão da realidade das pessoas. Prestar mais atenção às circunstâncias e ao contexto de cada indivíduo que permite que um bom líder cumpra com sucesso o seu papel de encorajar, apoiar e orientar os outros. Precisamos de promover o paradigma do companheirismo, que exige de nós um espírito de caminhada conjunta, de crescimento circular, criando estruturas alternativas de autoridade.
Apontou o estilo de Jesus como Fundamento da Nossa Liderança. Os Evangelhos apresentam Jesus, nas suas ações, como alguém que tem autoridade. É a autoridade da coerência. A autoridade de uma pessoa deriva da sua coerência, da sua integridade, da ligação entre a fé e a vida, e de falar apenas aquilo em que realmente acredita.
Nas suas relações com os outros, em vez de exercer o poder como dominação, Jesus empoderava-os, ajudando-os a crescer e a libertar-se, despertando a sua capacidade de agentes activos. Não criava dependências, nem infantilizava as pessoas. Mesmo quando se encontravam em situações de grande vulnerabilidade, Jesus tinha a sensibilidade de as capacitar (“a tua fé te salvou”, “Levanta-te, toma a tua maca e anda”). Ele exerce a autoridade com um toque de bondade, revelando o melhor de cada pessoa e capacitando-a para servir os outros.
Apoiando-se nos comentários do Papa Francisco, a Irmã Geraldina destacou três coisas que conferem autoridade a Jesus, as quais nos devem dar autoridade como dominicanas: Proximidade, Serviço e Coerência de vida.
Apontou também para os nossos fundadores como Modelos de Liderança Transformadora. “Nos nossos irmãos mais velhos da Ordem e no próprio Papa Francisco, existe um estilo de liderança de serviço e dedicação, de diálogo e afeto. Não se preocuparam com o sucesso ou com as conquistas imediatas, mas sim com a plantação de uma semente que o Espírito Santo um dia fará germinar e dar frutos”.
Os líderes transformadores são aqueles que exercem a sua autoridade de forma coerente e convincente, oferecendo ao grupo uma visão cativante que inspira e mobiliza as melhores energias das pessoas, motivando-as a unirem-se a um projeto significativo, adiando os seus interesses pessoais para priorizar uma causa comum que consideram importante. Sem líderes transformadores, será difícil navegar por tempos de crise como os que vivemos hoje.
Os elementos pontuados pelas duas intervenientes – Irmã Ízide e Irmã Geraldina – são indispensáveis para a nossa missão de semear esperança que transforma. A semente requer cuidado, paciência, visão de futuro. É disso que a missão da congregação necessita bem como o papel das Superioras Provinciais. A esperança não é passiva, mas ativa e geradora de mudança. Para tal, precisamos de nos revestir da ousadia da Teresa de Saldanha, nossa Fundadora, e de Catarina de Sena, nossa Padroeira.
Para além das conferências tivemos partilhas e escuta mútua no dia 20 de novembro de 2025. Cada Superiora Provincial apresentou a realidade da sua jurisdição. Das realidades partilhadas percebemos muitos desafios comuns e aspirações para o futuro.
Ao longo dos dias tivemos fortes momentos de oração, silêncio, inspiração bíblica e carismática. Estes momentos foram previamente preparados e ao concretizá-los alimentaram profundamente a nossa visão de esperança.
Os dias 24 a 27 de novembro de 2025 foram dedicados ao subtema “Cuidado e Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis”. A Madre Geral, Ir. Rosilene Linares, apresentou o esboço das Diretrizes da Congregação e reafirmamos que os acontecimentos impactantes e dolorosos sobre as situações de abusos no seio da Igreja, representam um grande desafio para cada uma das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena e para a Congregação enquanto Instituição Católica. Em sintonia com a nossa missão de educar, evangelizar, promover, proteger e cuidar, formando mentes e corações, queremos ser testemunhas de compaixão, justiça e esperança, garantindo que nossas comunidades e obras sejam espaços seguros de crescimento humano e espiritual.
Os trabalhos de grupo serviram para refletir e aprofundar o texto das Diretrizes do qual emergiram ideias e propostas que nos tornaram mais conscientes da problemática e nos capacitaram para melhor colaborar no cuidado e proteção de Menores e Adultos Vulnerávéis como semeadoras de esperança que transforma.
Por fim, a Madre Geral com todo o Conselho Geral deu orientações e alertas importantes para a vida e missão, nas Porvíncias, com linhas estratégicas para o futuro.
Num futuro próximo, o Conselho Geral fará a revisão do texto das Diretrizes que depois de aprovado será enviado a todas as Irmãs que o traduzirão em ação concreta nas Províncias e Casas.
Todas nós, Conselho Geral e Superioras Provinciais, sentimo-nos renovadas a partir de tudo o que foi vivido e partilhado ao longo do encontro. Foi um tempo de reencontro com o essencial. Saímos com mais coragem para semear esperança que transforma. Agradecidas pelo a acolhimento e serviço que as Irmãs da Comunidade de Fátima nos proporcionaram com tanto carinho, alegria e paixão.
Nos dias 28 e 29 de novembro de 2025 partimos de Fátima para um passeio/visita às nossas Irmãs das Comunidades da Guarda, Castro D’Aire e Aveiro. Visitamos também as Monjas Dominicanas de Lamego.
E agora a esperança continua a germinar e nos impulsiona a “criar raízes de santidade nos corações”. O encontro não terminou ali: foi apenas o início de um caminho. Continuaremos a semear a semente de esperança que cresce e transforma.
Irmã Maria Justina Câmbizi, DSCS.






















