Reflexões inspiradas no Retiro Anual – Fátima, 1 a 6 de junho de 2026
Entre os dias 1 e 6 de junho, a nossa Congregação viveu em Fátima o retiro anual orientado pelo Frei José Manuel Correia Fernandes. Foram dias de silêncio, escuta e reencontro interior, marcados pelo convite a parar, contemplar e refazer-se por dentro, para reencontrar a fonte da alegria e da missão.
O tema que nos acompanhou ao longo de toda a semana foi a vivência da nossa consagração através dos Votos em tempos marcados pela pós-modernidade — um contexto que desafia, questiona e, ao mesmo tempo, abre novas possibilidades de testemunho evangélico.
Escutar, dialogar e servir revelaram-se novamente caminhos essenciais para seguir Jesus com autenticidade, tanto nas palavras como nos gestos do quotidiano.
Viver os Votos na pós-modernidade: um caminho de fidelidade criativa
A pós-modernidade caracteriza-se pela fluidez, pela fragmentação, pela busca incessante de experiências, pelo império da técnica, pelo desejo desenfreado de felicidade e pela dificuldade em assumir compromissos duradouros. Neste cenário, os Votos de castidade, pobreza e obediência tornam-se um sinal profético e profundamente humanizador. São meios que nos ajudam a encarar os desafios com lucidez e responsabilidade.
O retiro ajudou-nos a reler cada Voto como caminho de liberdade, espaço de relação e expressão de amor oblativo, capaz de dialogar com o mundo atual sem perder a sua raiz evangélica.
A busca da verdadeira felicidade
A felicidade é um desejo legítimo, mas não pode ser reduzida a um bem individual, sem compromisso com outras pessoas. A pós-modernidade tende a absolutizar o bem-estar pessoal, mas o Evangelho recorda-nos que a verdadeira felicidade nasce da relação, da solidariedade e do cuidado mútuo.
Para evitar que o desejo de felicidade se transforme em individualismo, somos chamadas a cultivar:
- Liberdade responsável, que fortalece a fraternidade e impede a imposição da própria vontade.
- A primazia do ser sobre o ter, caminho essencial para viver a pobreza evangélica.
- Discernimento nas escolhas, para que a liberdade não se torne instabilidade, mas maturidade espiritual.
Querer leva vantagem em tudo pode nos levar a destruir os outros. Perguntas que iluminam o caminho: O que eu desejo é compatível com a minha realidade? Conduz-me à santidade? Faz florescer a minha vida ou transforma-a num deserto?
Responder aos desafios do mundo de hoje
O mundo escuta mais o que somos do que aquilo que fazemos. Por isso, cada consagrado/a é chamado/a a ser sinal de Deus, presença de alegria, comunhão e esperança no lugar onde vive e serve.
Viver os Votos hoje significa:
- testemunhar a alegria de uma vida entregue,
- afirmar a dignidade humana num tempo de descartabilidade,
- viver relações autênticas num mundo marcado pela superficialidade,
- ser presença de comunhão num contexto de polarização.
- Canalizar para Deus a força e o dinamismo da própria vida
O nosso estado de vida é dom e caminho de felicidade. Criados homem e mulher (Gn 1,27), somos chamados à relação e à comunhão – primeiro na comunidade, depois na missão.
A Trindade Santa – mistério da relação do PAI e do FILHO e do ESPÍRITO SANTO – inspira-nos a viver a nossa identidade com verdade e a colocar os nossos dons ao serviço da construção da comunhão.
Assim, a castidade consagrada torna-se expressão de um amor universal e inclusivo, capaz de gerar vida e proximidade.
- A missão exige despojamento e coragem
A missão pede disponibilidade, desprendimento e capacidade de partilhar. A pobreza evangélica, vivida com alegria e simplicidade, liberta-nos para servir com mais autenticidade.
O exemplo de Teresa de Saldanha, que abriu caminhos de educação e dignidade para as meninas da fábrica de botões, recorda-nos que o pouco, quando partilhado, torna-se muito.
O apego endurece o coração; o desapego abre-o aos apelos de Deus. “Pode o olhar ficar indiferente aos crucificados da história que ninguém vê nem chora? Tudo o que estiver ao meu alcance para aliviar os pobres e infelizes, eu o farei.”
A comunhão com Deus é sempre comunhão com os irmãos. Somos chamados a defender sobretudo aqueles que não podem se defender. É preciso que a abundância de uns remedie as necessidades dos outros.
- Amar e partilhar: caminho de oblatividade
A obediência evangélica, tão desafiada pela cultura pós-moderna, revela-se como caminho de liberdade interior e escola da humanidade.
Obedecer é escutar, discernir e responder com maturidade, não por imposição, mas por amor. É acolher e não aguentar. É seguir Cristo obediente cuja vida estava marcada por uma busca constante da vontade de Deus. É renunciar a sua autossuficiência para se abrir à graça de Deus.
Perguntas que ajudam a decidir: A palavra desta pessoa revela para mim a vontade de Deus? Já escutei várias perspetivas antes de decidir?
Com São Paulo podemos repetir: “Tudo posso n’Aquele que me fortalece” (Fl 4,13).
O mundo precisa do testemunho de pessoas vivas, alegres e cheias de Deus.
Conclusão: viver com responsabilidade, liberdade e fraternidade
O retiro convidou-nos a reler os Votos como caminhos de liberdade e de comunhão, profundamente necessários num tempo marcado pela incerteza e pela fragmentação.
Somos chamados/as a uma fraternidade autêntica, ao uso responsável dos bens e a uma postura adulta, consciente e livre.
Que o nosso passado ilumine o presente e este construa o futuro.
Que a graça recebida em Fátima continue a renovar o nosso modo de ser, de servir e de caminhar juntas na vivência da nossa Consagração através dos votos.
Aveiro, 08 de junho de 2026
Irmã Maria Justina Câmbizi, DSCS
















